vontade

As horas que vejo no pulso multiplicam-se em dezenas de outras numa cascata vertiginosa. Depois que um velho amigo sussurrou num livro que a temporalidade não o assusta, pensei: nem a mim. Quem espera, espera. Eu também fiz catecismo, tirei primeira comunhão de túnica branca e cabelo penteado de lado. Fiz foto em cima do altar para recordação. Vem deste tempo a vontade de encontrar-me com Jesus. E vou ser bastante sincero: eu daria muito mais que dez anos da minha vida se pudesse ficar 14 dias em frente a esse quadro, sem nada para comer além de um pedaço de pão. Feito o pintor sem orelha e a noiva judia. Eu deitaria sobre pregos pontiagudos e cacos de vidro e merda. Do alto das pedras eu vi Jesus retornando do templo com José e Maria. Ajoelhei-me em oração e masturbei-me freneticamente antes que meu pai me prendesse atrás da porta de castigo. Meu pau ficou duro e eu não usava cueca. Não posso vê-lo, mas diuturnamente o acompanho pelo alto das pedras desta cidade poeirenta e velha. Tem o cabelo escorrido até o meio do longelíneo e grosso pescoço acobreado e às vezes deixa uma boina de pele oriental despretensiosamente caída para o lado direito da cabeça. Um dia munido de um punhal e farejando escalei as pedras mais altas do bairro onde residia. Desce daí que o circo já foi e sua irmã fugiu com o atirador de facas. Sorte grande a dela. Uma boca a menos a dela isso sim. Mãe não vê que meu desespero é virulento e eu tenho pressa e minha tocha é de puro fogo. Das quatro cavidades do meu peito sobrou barro e sangue e dor. Deixe a minha irmã olhar para trás e ver a placa do trevo da cidade ficar cada vez mais diminuta e embaçada pelas gotas que encharcam suas lentes. A voz da mulher segurando a grade boquiaberta com a natureza libertina das crianças de uma creche; tudo doida! A insana admirada da loucura alheia ficou para trás. Como também o coque cheio de laquê da noiva do padre. Todo mundo sabe deste penteado e sua vontade. Jesus pôs-se de joelho e lançou a cabeça em minha direção com o olhar voltado para a borra da gameleira de colher o sangue já pronta. Tremendo coloquei a mão esquerda bem em cima dos seus olhos e a direita levava o punhal pela língua ferida e cheia de saliva. A circuncisão no templo não abandonava a minha cabeça. Cinco vezes já.

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