poema-biografia-de-uma-madrugada-para-sempre

Aqui você não está seguro.
Aqui, entre a amarelidão abortífera de uma madrugada recém-nascida, você não encontrará tesouros de sua salvação.
Aqui haverá apenas ponteiros e relógios.
Números vermelhos que vi dançar.
Aqui haverá lobos e segredos.

Tira os sapatos, pois é terra santa.

*
* *

Tira os sapatos, pois é terra santa de teus pais ancestrais que rastejaram e comeram pó.
Tira os sapatos e retorna, filho. Ao tempo de tua mãe.

Não haverá amor, você está redimido.

*
* *

Não encontrarão nossos restos mortais quando desabarem os montes e secarem os milharais.

Não encontrarão nossas famílias secas e nossos olhos vidrados, não encontrarão nossa poesia carcomida e nossos ratos de barriga cheia.

Não encontrarão diários, novelas, romances e filhas grávidas.
Não encontrarão corações, rins e estômagos.
Não encontrarão a nós.

Mas não estamos salvos.

*
* *

Pisa primeiro com o pé esquerdo quando entrar no meu mausoléu.
É tudo que escreverei na porta de meu túmulo.

*
* *

Porque essa magreza da pele não me permite músculos para proteger a alma.
Não me guardará contra um ataque direto das feras que rondam a minha madrugada.
E elas me rodeiam sempre tomando formas.

Sempre e cada vez mais perto.

Sem perdões.

Mas eu sou inocente.

*
* *

Os números dançam e dizem-me que ainda não é hora.
Não é hora de alta-madrugada-de-medo e que eu não me preocupe.

Ainda é hora de quebra do dia, onde não se sabe onde está, é terreno seguro onde lobos velhos descansam e dormem.

Mas eu estou
Sempre
Assustado.

*
* *

Não prometi nada.

Não passa e não passará.

Quantos segredos essa hora de lobo ainda vai sussurrar?
Quantos segredos sobraram?

Quantos sobrarão?

*
* *

Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui
Eu estou aqui

Eu estou aqui.

*
* *

“Quase nada, na verdade”
Ela escreveu.

E tinha razão.

*
* *

Poema biografia de uma madrugada para sempre.
Eu tenho um nome
Eu tenho um.
Eu tenho
Eu
Eu.

Eu sou inocente.

Mas nunca enganei ninguém
Não estou aqui para fazer literatura nem para ser metalingüistico.

Estou aqui para afastar fantasmas de medo de mim
O que me importa se irão assombrar tua madrugada?
O que me importa se o cheiro de sangue que transpiro ira ficar em você e as feras me abandonarão para ir por ti?

Eu estou aqui para me salvar,
Eu estou aqui.

Para mim.

Isso é uma corda de fuga, não de forca.

Não é teu espetáculo…

Não se sinta enganado.

*
* *

Destoar.

*
* *

Começa, agora, a madrugada real

Os sons reais da rua não chegarão a tempo de me tocar.
Os trens estão todos atrasados hoje.

Eu olho pela janela ao lado e espero.
Eu fico de espectro jejuante à janela e espero.

Mas hoje o mundo dormiu cedo e me deixou de lado.

E eu não me perdoarei por ser inocente.
Eu não perdoarei a nada que toquei.

Justiça se faz com os dentes onde estou.
Justiça se faz com os dentes.

Não com restos migalhentos de palavras e olhares.

Eu só sei viver de palavras e olhares.

Agora que a madrugada é real,
Onde dormirei?

*
* *

Mas está errado, está errado, nunca certo.
Aqui dentro.

*
* *

Matei minha saída de volta.
Estou agora sozinho aqui.
Você não entenderá quando encontrar o que não encontrará.

O que fará quando perceber enfim que aqui não sobraram tesouros?
Que eu descavei com minhas unhas toda a terra e guardei comigo o nada que encontrei?

Chamaremos de alma essa dor.

*
* *

“Hoje, eu tive um sonho”
Cantei.

E nada mais longe da verdade.
Hoje…

Não dormi.

*
* *

Nada do que pode ser lido aqui está livre.

*
* *

Isso não é poesia, irmãos.
Isso é a libidinagem da alma que se sangra toda por um lapso de vaidade.
Isso é a orgia das idéias.
Isso não é poesia.

Poesia
não
existe.

*
* *

Eu não tenho mais medo de pensar o mundo como um monstro.
Eu não tenho mais medo
Eu não tenho mais medo.

Estamos agora na fronteira da real madrugada.
E os temas se arrastam e não é dezembro.
Não é dezembro agora, mas é.
É dezembro no meu nome.
Esse eterno dezembro.

Estamos agora, parados, um diante do outro, e nos encaramos com esses mesmos olhos de espelho.
Eu reflito o mesmo nada que você reflete.
Você me acompanhou até aqui de mãos dadas e eu já te disse que sou siamês do mundo e que meu irmão é um natimorto.

Você me acompanhou e eu te conduzi para esse mundo sem sons e sem cortes.
Essa madrugada que mais parece sala acolchoada de hospício.

E eu não sei usar as palavras que ela usa.
Não sou fácil e nunca serei.

Comigo é menos preciso, minha lança não tem ponta.
Eu vou te matar a pedradas.

*
* *

É tempo de lágrimas.
É chegada a hora das lamentações e não importa o que lhe digam, acredite em mim enquanto puder.
É tempo de mortes sem velas e de sonhos que preocuparão sua vigília.

*
* *

Fui covarde e fugi na hora mais exata.

*
* *

É sol alto lá fora, mas é madrugada dentro.
Dentro é uma dezembrosa madrugada que urge e ruge

O tempo não é mais o mesmo que costumava ser antes
Ele se despregou de mim e me abandonou antes que eu pudesse me salvar.

Pulei do barco em chamas, mas eu estava em chamas.
E o mar não me aceitou.

Sou, agora, o que eu era ontem.
Um insone do dia que não apareceu.

É madrugada de meu dia, alta-madrugada-que-não-sara.
Ferida de inocente acuado.

Mas eu não sou inocente.

*
* *

Talvez agora possam anunciar um tempo novo e mais alegre para cantarmos.

Mas não acontecerá porque dei as costas ao futuro e fui covarde.
Não acontecerá porque abortei madrugada adentro-e-mais-dentro um Deus que enfiaram em minhas intimidades.

Abortei.

Sou um covarde.

*
* *

Dia de uma madrugada-para-sempre.

*
* *

É dia e na hora do medo eu me refugiei em tuas recordações para me salvar.
Eu me refugiei em teu abraço distante para me proteger.
Eu me abandonei e deitei ao teu colo quente para chorar e ser menino-de-outro-momento.

Resguardei-me em uma quarentena sonolenta onde não poderia ser tocado.
Guardei-me entre as ovelhas de nossas lembranças, meu rebanho não guardado que pasta livre em mim.
Salvei-me quando tudo era fogo e espinhos, entre os rios de teus lábios abertos e vivi.
Não sem cicatrizes.

E me transformei, momentaneamente, em filho-homem que chora e reclama partes mais profundas.
Em fardo carinhoso.

Reclamei para mim parte de tuas memórias.

Mas

Esse também é um poema de amor.

*
* *

Eu menti.

*
* *

Não somos irmãos.
Não somos irmãos.

Os motores de minha engrenagem soam diferentes.
Os motivos de minha guilhotina são menos nobres.
Minha noite é povoada por feras insones e eu me escondo furtivo por palavras e isso não é salvação.

Não é poesia o que meu corpo clama.
Não é alma isso que decidi chamar de alma.
Não é som o que eu escuto e não é Deus o que eu adoro.

Não há mais pedaços de mim para dividir, então deveria me enterrar e crescer,
Fundo como um parasita da pele.
Deixar cicatrizes na terra
E sangue por onde passo.

Não somos irmãos você e eu.

Está tudo bem, agora.

*
* *

Não é para isso que eu estou aqui.
Para essa negativa sem afirmação.
Esse descontínuo narrar de fatos infecciosos.

Esse poema que é carne podre na boca da fera.
Esse poema que é ferida aberta no lado de Cristo.
Esse poema que é dor de dentes na madrugada berrante.

Não é para isso que eu estou aqui.
Não é para erguer essa torre de babel que eu vim.

Não é para moldar com barro um homem.

É, sim, para salvar o que não será salvo.

Eu não estou redimido.

*
* *

Esse também é um poema.
Apesar de não sê-lo.

É maior e menor que eu.

Mas não é meu papel ser grande ou pequeno.

*
* *

Não sou outra pessoa agora.
Não serei outro.

Não estaremos seguros enquanto houver no peito uma estrela que seja.

Minha madrugada é nublada e chove pela manhã.
Minha nuvem resiste.

Meu fim permanece.

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