poema-biografia-da-cidade-enquanto-uma-fortaleza

Enquanto houver feiúra e calor por todos os lados, estaremos em casa.
Enquanto houver dentes e luzes por todos os lados, estaremos em casa.
Por onde ouvirem carros e trens e crianças ruminando o amarelo, estaremos em casa.

Lar doce lar.

O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
E aqui, fortaleza, é onde encontramos teu frio e pulsante coração de mendigo viciado.
É aqui onde vivemos teus dias de trem descarrilado e tuas ondas de mar seco e de rio morto.

Por onde mais teremos esses medos e esses calores de cidade forte?
Por quanto tempo mais viveremos santos e catedrais de pó?
Por quantos cruzamentos esse azul desolado?
Por quantas luzes, fortaleza? Por quantas luzes?

Porque o homem nasce e cresce e morre por todos os dias de sua vida.
Porque o homem é vivo e ser não é o bastante para ti, não é?
Porque precisamos estar a salvo e salvando.

O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
O lar é onde o coração está.
Sou feliz e tenho amigos.

Quantos mantras mais precisaremos para poder santificar teus raquitismos?
Quantas marcas na carne para coagular teu sangue salino?
Tuas minas de gente, teus restos de saliva espumosa no canto da boca.

Até quando, fortaleza, até quando nossos corpos amarrotados em sacos?
Até quando nossas vistas nubladas em muros?
Até quando nossos santos remanescentes empilhados em catedrais?

Porque a cidade é morte, e morte de luz.
Porque é promessa viva que fizeram antes do sol nascer.
E somos oferendas ao sabbath.

Deus meu, por quê?

Esse jazz automobilístico,
Esse beat and bop que nos acompanha de olhos fechados e até mesmo dentro das pálpebras.
Matamoscas, carropipa, antitetanica.
Inseticídio, calaboca, antirábica
Enraba a vontade, cidade, estupra o desejo, mais e mais.

Eu quero estar do lado dela.

O que fizemos por você, fortaleza, para que retribua sempre sorridente?
Filhos ingratos.

A cidade é um cemitério.
A cidade é um cemitério.
Lar é onde os ossos dos nossos foram enterrados.
Lar é onde os nossos ossos estão enterrados.
E o coração não sobrará.

Para onde, irmã, para onde com essas pernas fracas e bambas de fome?
Em que rua seu destino se encontrará com o meu, cidade?
Em que cinza, em que amarelo, em que vermelho?

Serão cinzas tuas urnas.
Serão cinzas.

Serão cinzas tuas árvores mortas e sifilíticas.
Teus arbustos magros e mortos de fome.
Tuas árvores pedintes, tuas árvores medusas, tuas árvores on the rocks
Enfia de volta onde tiver vontade
Enfia no meio de tua ânsia de vômito, cidade, essas tuas árvores filhas do crack que estão todas sujas de fumaça.
Árvores, gente, carro, pedra e pó.

Tudo se mistura no teu liquidificadoscópio
Sangue e luz.
Sangue e pedrinhas coloridas que se misturam
Suco gástrico e antiácido.

Baús onde estarão nossos rostos de ser
Onde esconderão a todos.

Serão cinzas nossos restos.
Seremos grandes e indivisíveis pedaços da terracidadefortaleza que embala minha fome de ter fome.

Até quando, fortaleza?
Até quando praças hospitalares e militarizadas?
Até quando muros mancos e vontades maquinais?
Até quando sede e canto?

Para quando é tua gravidez de menina, cidade?
Para quando é teu homemratoraquítico?
Para quando é?
Até quando é?

Essa inseminação artificial de copos de esperma
Essas cópulas em espera e esses corpos em estado de alarme.
Esses nervos sempre sobre a pele.

Grita
Sou feliz e tenho amigos.

Até quando, fortaleza, até quando mentirá para nós?
Até quando mentiremos?

E o que faremos com essas tuas mentiras?
E o que faremos com esses teus roubos, esses teus assassinatos ao nosso entardecer?
O que construiremos com tuas fugas furtivas onde nos deixa suspensos e desejosos de queda?

O que poderemos construir?
O que seremos se não que não novas fortalezas, novos fortes, feudos e cidadelas?
Não nos ensinou a ser algo novo, mãecidadeguarita.
Só somos S.O.S, gritodeajuda, choro de criança.

Só sabemos ser sós.
Porque é só o que se pode ser.

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