Manga Carlotinha

Como faltasse luz pela terceira vez naquela semana eu, puto que estava, não pude fazer nada senão acender um cotoco de vela e deixá-la queimando sobre um pires na mesa da varanda, que é o lugar mais iluminado e fresco da minha casa.
Pois quero dizer ainda que naquela noite, ao contrário das outras, não tinha chovido, trovejado ou sequer ventado forte, e que ainda por cima fazia um calor maldito. Já disse que estava puto: reitero. Puto e com fome. Olhei pela janela para ver quantas casas além da minha estavam sem energia e vi que era o bairro todo.
Estava puto e com fome.
Era comum que faltasse luz quando chovia muito e nesses dias eu ia para a casa da minha mãe, mas hoje ia fazer três semanas que ela tinha morrido. Pena.
Merda, não tinha por quê ter faltado luz, de modo que estava eu ali sentado à janela suando feito um porco.
Puto, suado e com fome.
Contemplei novamente a cidade iluminada, bonita de pontinhos prateados. No calor e na escuridão quebrada apenas pela vela, esse singelo falo oriental, foi-me batendo um cansaço morno. Fui deixando de estar puto para então estar só com fome e suado.
Apanhei uma fruta no cesto sobre a geladeira. Era uma manga carlotinha, do tipo mais doce, rosada e suculenta. Em cima da mesa, ao lado da vela que se consumia, concebi de repente um quadro de natureza morta e não quis desmanchá-lo.
Admirei a manga e a vela lado-a-lado; o vigor da manga seivosa, gorda, prenhe de uma semente felpuda, e a vela mindinha, seca e anã – só lhe faltava ser corcunda. Pensei no que diria minha ex-mulher se lhe contasse que, no meio de um apagão, parei para achar bonito uma manga e um cotoco de vela. Ela riria, certamente.
Estava começando a me chatear. Lambia a manga lentamente, sem propriamente sentir-lhe o gosto, pensando em quando a luz haveria de voltar. A fome foi dando trégua e, sozinho no apartamento, um grande cansaço foi se apoderando de mim. Tirei a roupa, que já estava mesmo toda suja de nódoa da manga e fiquei nu.
Estar assim, barrigudo e tão fora de forma me dava uma satisfação estranha. Pêlos me saíam de todos os orifícios; tinha pêlos grisalhos na cabeça, nos ouvidos, no nariz, no cu, até os pentelhos estavam grisalhos agora…
e isso me aprazia.
Mas com essa velhice me vinha o cansaço. O tal do cansaço.
E nada de a luz voltar. Tinha uma escrota de que ela nunca mais voltasse. Porque então poderia ficar ali parado, nu, sentado na varanda e todo babado. A manga, afinal, não acabava nunca.
Mas sim, sim. Tenho algo a contar também: foi nessa noite que eu descobri que os vaga-lumes eram verdes.
Os vaga-lumes eram para mim existências quase mitológicas, do mesmo ramo dos galos que cantam com o nascer do sol, do leite não-pasteurizado e das cópulas felinas. Pois tanto está que, enquanto olhava distraidamente o pedaço de mata que vê-se da minha janela, um desses bichinhos entrou na varanda e começou a circular em torno da vela.
Assustado que fiquei, tomei logo o impulso de esmagar o artrópode entre minhas duas mãos espalmadas. Quis a fortuna, entretanto, que ele não morresse, mas ficasse preso entre as membranas dos meus dedos. Então pude vê-lo: um bichinho marrom, feioso – quase uma barata – com uma singela lanterninha verde na bunda.
Deixei o vaga-lume ir.
Foi quando soprou a brisa mais forte e apagou a vela.
E então fiquei no escuro, respirando com cuidado. Nada podia fazer barulho. A escuridão era tão cuidadosa em esconder as coisas que nem das sombras tive a oportunidade de ter medo. Aquilo começou a me incomodar, incomodar, incomodar e de repente gritei:
Ahhhh escuridão
O silêncio
O calor
A sujeira
A fome
A sede
O cansaço
A velhice
A dor
O medo
A impotência
A nudez
[sussuro]E também o trabalho, o carro, os filhos, o patrão, a mulher, o cachorro, as dívidas…[/sussurro]
O sebo
A baba
O suor
A fumaça
O pigarro
A coceira
O sono
A ressaca
A sujeira
O intestino…
Mas o vizinho de cima mandou que eu calasse a boca. E eu calei. Eu calei a boca e engoli aquele tumor poluído junto com a última gota desesperada de seiva da manga. Estava exausto. Caí adormecido ali mesmo sobre a mesa.
A luz voltou às duas da manhã. Acordei com os gritos da vizinhança. Já não me sentia incomodado. Lentamente me levantei e fui tomar um banho. Amanhã não acordarei.

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