fetus-infectus

Estou aqui. Preso. Aqui. Aqui. Ecoando, sugando, tomando o que não é meu, mas deveria ser. Meu direito. Espreitando sonhos, comendo ácido, crescendo pra dentro. Um infinito confinado no maior. Preso. Sempre estar dentro, sempre estar. Não há como fugir. Todos os pertos são paredes e os longes são além corpo. Tudo é esse saco carnoso. Tudo são esses órgãos-irmãos do irmão. Estou aqui. Preso. Grito e nada me ouve. Sinto as dores dele e as minhas. Dói em mim o tempo todo as dores que poderia ter tido. Dói em mim o tempo todo o confinamento carnoso, orgânico, o sangue, a linfa, os vermes, o intestino ligado de alguma forma a mim. Não tenho boca. Não tenho olhos. Mas vejo uma luz vermelha daqui, através da minha pele. E escuto todos os seus pensamentos. Escuto-os como escutava antes, na barriga da mãe. E quando nascemos foi como permanecer. De um confinamento a outro. De um universo a outro. De um corpo a outro. Estou aqui. Preso. Ouvindo seus lamentos, assistindo aos seus sonhos, sendo seu parasita sorridente com uma nodocorda, alguns nervos, dois dentes, alguns pêlos finos e escuros, um estômago e corrente sanguínea. Mal chego a pensar e à maior parte do meu tempo estou em estado iminente de espera e náusea. Estou boiando num limbo de espera. Aqui é tudo impacto e som. Escuto seus gemidos, suas amantes, seu gozo. Sinto-o. Odeio-o. Daria tudo. Mas estou aqui. Preso. Ah, as noites – que aqui é sempre – de vigília quando saio do torpor do som, do coração, do pensamento, do sonho e eu amaldiçôo tudo onde posso colocar meu ódio. Onde colocaria as minhas mãos se pudesse arrancar o ódio. Sonhei ontem que saía do irmão através da cavidade final do seu intestino e o matava. Ah, se fosse possível. Sorriria meus dois dentes mal formados e iria atrás do túmulo da mãe para cavá-lo e desonrá-lo. Mas não. Não posso. Estou aqui. Preso. Prisioneiro vivo. Vivo. Vivo e pulsante, ainda que não sinta muito. Pulso. Ouso. Tenho coração, apesar de mínimo, fetal. Tenho medo. O que acontecerá quando o irmão morrer. Continuarei vivo dele até que morra também? O que é morrer para o que não nasceu? Ouço suas palavras e não as compreendo, pois são de outra língua, uma com pulmões, e como posso? Me esgueiro e me comprimo quando sinto frio. Ele sente minhas dores nessas noites e amaldiçoa algo. Eu sinto. Sou maldição. Sou um câncer vivo com alguma humanidade dentro. Sou um par de dentes com sistema nervoso patético. Sou um leve escárnio – que sorri com dois dentes – contra o corpo, sou um parasita rancoroso, mas não pedi pela minha condição. Fui tragado de alguma forma e acordei aqui. Dentro. Aqui onde é vermelho e lento e tédio e rancor. Aqui, apertado, dolorido, suado. Quando está quente me espalho um pouco mais, sinto os órgãos roçando em mim e causo ainda mais dor. Ah, os dias calmos de temperatura morna, onde posso ocupar o espaço que é meu. Onde fico em um limbo calmo e lento. Onde sou apenas a doença viva e que clama por alguma forma de fim. Mas não. Estou aqui. Preso. E a mim não cabe escolha, a mim não cabem olhos e vista e gozo. A mim não cabe um parasita para me odiar. A mim cabe o orgulho nodoso e cheio de rancor de ser o parasita infeccioso, de coloração pálida banhada de um vermelho que não lhe pertence. A mim cabe saber quem sou e esperar que a morte se abata sobre o mestre. A mim não cabe ser procurado por Deuses. A mim não cabe um papel, mesmo que entediado, numa batalha mística entre Deus e o Inferno. A mim cabe, sim, esperar preso. Preso. Preso. Vivo. Vil. Vil, vivo e constante. Vivo e consciente. Vivo. Preso e vivo. Preso. Aqui. Sempre.

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