[endereço de tortura]

todo o decorrer do teu dia anoto em um bloco de papel branco. arrasto na verdade a tua e a minha paciência e não chamo isto de diário não. denomino: ENDEREÇO DE TORTURA. prefiro tenho a impressão.

da primeira vez que o vi, como um cão deve de espreitar, com a distância devida, tinha os olhos deitados nas coisas do mar. ocorreu-me em seguida de acompanhá-lo no descanso: ali de sua sombra, tão próxima que lhe tivesse o mesmo horizonte. pareceu-me assim mais seguro ensacar em papel o meu primeiro grito.

na porta a unha riscou de alto a baixo vértebra por vértebra do meu esqueleto de carne. um fio líquido vermelho azul escuro escorreu por cima do tecido e penetrou no vulcão da minha bunda.

o tempo forja os sentimentos na medida do ato e do silêncio. toma-lhes, com o passar, porque sincero, a forma de grande. vomito agora dentro do saco de papel outro grito.

lá fora o tempo e as pessoas. a boca por onde a lava emergia depois de segundos um coágulo ressecado de ontem. o cu outro. eu sei do sabor de crostas de sangue e cheiros de ontem. à distância lambe com a língua lixa de um deus. tomo nota arrepiado devo confessar. viver com meus próprios erros já me dá trabalho suficiente para além do mais te suportar às minhas costas nesta sala de piso branco de penas e ácaros.

por este tempo é o impulso louco de pular para o desconhecido. não é suicida mas a coragem parecerá de tal em não se desvanecendo e embora não possa dar respostas porque tenho perguntas o dia está bonito para amar. mais um grito ensacado será suficiente?

recolhe teu braço espalhafatoso ao encosto vermelho veludo de vergonha. tua e minha farra insana com fígados quentes para verrugas e instantes de moscas. tudo no meu dorso tudo. passos trôpegos de visitas inconstantes em ciscos de quintal cortiça de jabuticabeira tiram fina do meu corpo porta que aprendeu a identificar temperaturas e olfatos.

uma mulher chorando seu próprio coração lágrimas aos pés ensopando as unhas por colorir. pulou a janela e deixou pele no arame farpado. levou o sangue por pastos secos formigueiros monturos de cupim curral. um muro longe. agora ao alcance das mãos: E EU SUPORTO TODO O TEU AMOR. o vento leva o meu grito de papel para longe de mim.

você quer que eu escute da minha própria boca amordaçada como? transformar garatujas vocais em entendimento sempre de costas e escuto da minha e da tua própria boca. viver com meus próprios erros já me dá trabalho suficiente. redigo. vê-los esculpidos nos teus dentes de marfim diuturnamente arranha-me. então desenhas árvores genealógicas e erras os nomes que caem dos ramos. sou todo rio e riso caudaloso tão caudaloso um rio amazonas desaguando barrento. você tímido o mar recebendo todas as minhas iras aquáticas. mais um grito escrevo com linha e agulha na pele porque falta juízo nas minhas nem tão minhas partes do meio. ÁGUA É SANGUE EM MIM.

e eu vou mesmo assim entre cascos de vidros e calcanhares ásperos em que esfrego todo o meu corpo em desaprumo até arranhar-me nas tuas paredes de texturas brancas e desertas. Não é o amor que não cabe em mim sou eu que não me caibo no meu amor. Sou eu novamente a mesma mulher escalando as paredes do teu abismo de águas aguardando a intermitência da próxima secura para deixar riscado na terra com minhas unhas encardidas: ESTAS PESSOAS NADAS: EU. e um grito.

você vai para longe mulher ainda com um sonho bordado no saiote: lamber o dedão de Deus até virar ferida e osso. o Deus sou eu teu pai muralha de pedra erguida no interior do teu sertão que você arrodeia arrodeia esbaforida e língua toda nua para fora da caverna. e como eu rio deste teu bloco de papel não mais branco e nem mais sujo. como eu rio deste rio que escorre para o interior de mim e te ancora. presa a mim: TEU ENDEREÇO DE TORTURA.

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